Patricia Gisbert (Beauty Cluster): "Espanha exporta mais perfumes que veio ou azeite de oliva"

A experiente em perfumaria do Beauty Cluster analisa o 'boom' das fragancias doces e a perfumaria de autor num momento marcado pelos impostos, Oriente Médio e o encarecimiento das matérias primas

Patricia Gispert, responsable de innovación en perfumería del Beauty Cluster   CEDIDA
Patricia Gispert, responsable de innovación en perfumería del Beauty Cluster CEDIDA

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Espanha é o segundo maior exportador de perfumes do mundo, só por trás de França. Em 2025, as exportações do sector superaram os 10.124 milhões de euros, segundo dados da Associação Nacional de Perfumaria e Cosmética (Stanpa). No entanto, poucas vezes a perfumaria aparece entre as grandes indústrias com as que se identifica ao país.

"Se pensas em Espanha, pensas em vinho, azeite de oliva ou sapatos, mas não em perfume", explica a Consumidor Global Patricia Gisbert, responsável por inovação em perfumaria do Beauty Cluster e coordenadora da Barcelona Olfaction Week (BOW), um evento dedicado ao universo olfativo que celebrar-se-á do 18 ao 24 maio em diferentes espaços da capital catalã. Durante a entrevista com Consumidor Global, Gisbert analisa o momento que atravessa o sector. Actualmente, está marcado pelo auge das fragancias doces e os perfumes árabes, mas também por desafios como a tensão geopolítica, os impostos em Estados Unidos ou o custo das matérias primas.

--Qual é a situação atual do sector da perfumaria em Espanha?

--Somos um sector importantíssimo a nível nacional. Exportamos mais perfume que veio, calçado ou azeite de oliva. Estamos num contexto geopolítico complicado. As exportações vão principalmente a Estados Unidos e a situação alfandegária tem afectado bastante ao sector. De facto, tem caído um 13% mas, mesmo assim, seguimos sendo o segundo exportador mundial. Oriente Médio é outro mercado estratégico e estamos todos pendentes de ver como evolui porque, ademais, afecta directamente às matérias primas com a que se faz a base para o perfume.

--É verdadeiro que para elaborar um perfume se podem precisar até 3.000 ingredientes diferentes?

--Sim, depende do perfume. Alguns têm uma grande quantidade de ingredientes mas há outros ingredientes que são um perfume em si mesmo. Por exemplo, a bergamota. Os perfumes são uma complexa mistura de azeites essenciais, de matérias primas olfativas, alguns têm uma fórmula muito breve e outros não. A cada um é um mundo.

--Está a produzir-se uma revalorização da perfumaria de autor, ir ao perfumista e fazer uma fragancia exclusiva para um mesmo.

--Leva-se, por uma parte, fazer um perfume ad hoc ou o layering, que consiste em combinar várias fragancias terminadas. As novas gerações estão a apostar por "armários de perfumes" e utilizam-nos segundo seu estado de ânimo ou as estações do ano. De facto, em 2025 teve mais de 10.000 milhões de perfumes lançados no mercado e estamos a ver que a cada vez mais se leva mais a perfumaria de autor.

--A nota olfativa de BOW 2026 é o pachuli, como se integra uma nota tão intensa e clássica com as novas tendências?

--O pachuli é uma nota complicada porque é terrosa e cálida mas se combina-la bem, pode ser fantástica. Há grandes perfumes com pachuli que estão muito bem vestidos e são muito redondos. Tudo depende de como combines as esencias.

--O sector da perfumaria é muito amplo quanto a preços. Temos desde colónias por cinco euros a perfumes que custam mais de 120 euros. Que é o que determina o preço?

--Tudo depende da concentração de ingredientes. Se contém entre o 20 e o 40% de esencias, falamos de perfume. Se a concentração é inferior ao 10%, falamos de águas de colónia. Segundo a percentagem de esencias que contém tem um preço ou outro, porque também tens que fazer um investimento maior. Também influi se leva, por exemplo, mais ingredientes naturais. Alguns deles têm um custo mais elevado que os que vêm de origem sintética, por exemplo.

--O clássico conflito do natural e sintético em cosmética…

--Na perfumaria usam-se os ingredientes sintéticos como alternativa aos naturais. Por exemplo, precisam-se 3,5 toneladas de rosas para fazer só um quilo de esencia da flor. Aqui é onde, por preço, se costuma ir para a variante sintética, que procura o componente principal de olfativo da rosa.

--Uma indústria pouco sustentável. Como se justifica a utilização de tantos ingredientes?

--Principalmente, é o preço. Não vale o mesmo um ingrediente sintético que um natural. Nos naturais utilizam-se muitos recursos. O sándalo, por exemplo, em alguns países já não está disponível e se cultiva em outros.

--Quanto a tendências, que estão a demandar mais os consumidores?

--Demandam muitas fragancias doces, que as chamamos gourmand. Gostamos muito as vainillas, de notas afrutadas e chocolates. A tendência gourmand chegou já faz anos e se instaurou como um pilar central das perfumarias. O que passa é que dantes falávamos de perfumes doces que eram muito monótonos. Por exemplo, um perfume de vainilla. Agora são bem mais complexos e sofisticados. Também se estão a começar a levar fragancias que são como uma segunda pele.

--A que se refere?

--São mais discretas. São fragancias que nos envolvem e nos fazem sentir bem. Por exemplo, com madeiras suaves como o sándalo. São umas fragancias que não irradian tanto para afora, mas que também tem esta parte reconfortante.