Eloy Gutiérrez (CECU): "A insegurança vem da mão de quem pretende especular com a moradia"
A Federação de Consumidores e Utentes reclama mais "valentia" e prioriza a mobilização de moradia que não está destinada a usos habitacionais
Ouve o artigo agora…
Faz uns dias, a Ministra de Moradia, Isabel Rodríguez, sorria numa entrevista para O País na que assegurava que existe um consenso em Espanha em torno do facto de que não pode ter especulação com a moradia. "Estamos a ganhar", proclamou. Victoria estranha essa na que a percentagem de proprietários mais jovens se afundou à metade em mal uma década. Enquanto os projectos vitais se resquebrajan, os vizinhos são expulsados de seus bairros e a demanda não deixa de crescer nas grandes cidades.
O preço da moradia experimentou um aumento de 12,7% em 2025, superando os máximos registados na borbulha de 2007. Simultaneamente, os dados de Idealista refletem que o preço médio do metro quadrado se duplicou em 10 anos. Por sua vez, entre 2015 e 2024, o salário médio bruto aumentou um 26%, enquanto o aluguer subiu nesse mesmo período um 82%, mais do triplo.
Críticas ao Plano Estatal de Moradia
Cunde o desánimo e a raiva entre milhões de espanhóis que sentem que a possibilidade de traçar um futuro com certezas lhes foi arrebatada. Depois de um longo atira e afloja, o Governo apresentou faz uns dias o novo Plano Estatal de Moradia para o período 2026-2030, que contempla numerosas ajudas para a alavancagem do parque público de moradia, a reabilitação de edifícios e a redução do esforço económico que supõe para os lares.

No entanto, a Federação de Consumidores e Utentes CECU propõe sérias dúvidas sobre a eficácia real do plano e lamenta sua "falta de ambição". Falamos com Eloy Gutiérrez, antropólogo especializado em intervenção social, migrações e urbanismo e representante de Moradia na entidade.
--Dantes de entrar nos dados, queria perguntar pelas sensações. Acha que, em general, os governantes são conscientes da magnitude da crise de moradia?
--Sim, são conscientes da magnitude porque é uma questão que afecta a uma alta percentagem da população. A questão é a valentia à hora de abordar a problemática em seu conjunto e os factores que dão lugar a esta crise que atravessa o país.
--Certamente afecta a muitos sectores, mas no outro dia publicou-se que o 67% dos jovens (18–34 anos) segue vivendo com seus pais. Acha que é um sector da população especialmente castigado?
--Acho que centrar o problema de acesso à moradia só na juventude é problemático, porque não é uma questão que só afecte aos jovens. Vemos diariamente como aposentados são expulsados de suas moradias porque são compradas por fundos de investimento que lhes sobem aluguer o duplo ou o triplo do que vinham pagando, e não podem fazer frente. A cada sector da população sofre esta crise de moradia com umas características, mas centrar-se só na juventude seria se fazer armadilhas ao solitário.

--CECU considera que, no Plano Estatal de Moradia, dever-se-ia ter garantido o aluguer social com carácter permanente das moradias públicas. Ademais, critica a ausência de linhas de financiamento específicas para a reabilitação de moradias de consumidores vulneráveis. Por que acha que se deixaram fora?
--Porque está proposto que esse financiamento saia do Plano Social para o Clima, mas agora mesmo não temos a certeza de que este plano vá ser aprovado. Primeiro deve-se aprovar a transposición do ETS2 e posteriormente dar-se-ia pé a que este plano fosse aprovado. Nós o que pensamos é que esse financiamento destinado a que os lares vulneráveis possam reabilitar suas moradias tem que dar com um carácter estrutural. Não podemos gerar uma brecha que faça que quem tenham acesso a ajudas ou lho possam permitir possam viver em moradias com condições energéticas eficientes; e, quem não, se vejam abocadas a viver em moradias completamente deficientes. Isso implica problemas de saúde, frio…
--O Banco de Espanha calcula que Espanha tem um déficit de moradia de umas 700.000 unidades. Que opinam ao respeito?
--A construção pode ser uma opção, desde que primeiramente mobilize-se a moradia que não está destinada a usos habitacionais. Já não só nos referimos à moradia vazia, sina à moradia destinada a uso turístico em zonas nas que o mercado residencial está altamente tensionado e não se põem em prática políticas que cubram as necessidades da população que habita nosso país. É moradia, ademais, que já temos construída, não faz falta esperar. Também é verdadeiro que há moradia vazia em zonas de baixa densidade populacional, e aí nos podemos propor que políticas podemos levar a cabo para abordar o repto demográfico. Que nessa zona que chamamos a Espanha Esvaziada, a gente tenha interesse em voltar a viver.

--Ainda que mobilize-se moradia, nos últimos cinco anos em Espanha criaram-se mais de um milhão de novos lares. Apesar disto, acham que a construção não é prioritária?
--Primeiro temos que enfrentar a urgência. Há uma escassez de moradia, e devemos perguntar-nos se vem da criação de novos lares ou de que a moradia que se usava para viver se levou a usos especulativos ou a usos como o aluguer habitacional. Se temos que esperar a construir, o problema seguirá estando até que estejam prontas. Por isso, uma vez que se tenha mobilizado o parque, já veremos até que ponto é necessário construir, em que momentos ou em que lugares.
--Em novembro, o Congresso tumbó a proposta de Somar de proibir aos fundos de investimento comprar casas em Espanha. O PSOE absteve-se. Consideram que teria sido uma medida positiva?
--Há que o entender tudo no conjunto. Teria sido positiva enquanto são actores que usam a moradia para o enriquecimento económico, não como uma infra-estrutura social. A gente compra uma moradia porque precisa um lugar no que dormir, no que se resguardar, no que cozinhar… Um lugar no que ter uma vida. Em mudança, uma empresa não compra uma moradia para poder descansar quando chega a sua casa de trabalhar ou para dar uma vida digna a seus familiares. O que pensa a empresa é que vai adquirir 80 metros quadrados e vai fazer seis habitações para as alugar e aumentar o benefício.

--Apesar de seus esforços, Somar não tem conseguido que o decreto da prorrogação dos alugueres saia adiante. Qual é a situação agora?
--O decreto é uma ferramenta de contingencia ante a situação. Num momento no que temos preços em máximos históricos, o que possibilita é ampliar os contratos vigentes por mais dois anos. É uma consequência do afán especulativo que há sobre a moradia, num momento no que o 61% pertence a fundos de investimento e a multiarrendadores. A prorrogação, o único que faz, é prorrogar durante dois anos os direitos e as obrigações de arrendadores e arrendatarios. Isso significa que, se o caseiro precisa a casa para uso próprio, pode seguir a demandando. Não se está desvirtuando o mercado nem nada parecido, é simplesmente uma ampliação. Dado que não tem sido aprovado, provavelmente, aqueles arrendadores que tenham um afán especulativo judicialicen estes casos, de maneira que serão os tribunais os que finalmente decidam a validade ou não desta prorrogação.
--Somar tem instado aos inquilinos a pedir a prorrogação. Por isso, a nível jurídico, não lhes dirigiu a colocar numa situação de insegurança?
--Não. No momento no que solicitas a prorrogação, tens mais dois anos de contrato. A insegurança vem da mão de quem pretende especular com a moradia e faz que não saibas se te vais ter que ir de tua casa ou se vais poder alugar outra no mesmo município, o mesmo bairro ou inclusive te ver abocado ao hacinamiento habitacional. Que modelo de país queremos construir, um no que numa moradia vivem duas ou três famílias, porque não são capazes de alugar uma para eles sozinhos? Isso gera uma insegurança bem mais grave para as famílias espanholas.

--O topo ao aluguer em Barcelona tem gerado muita controvérsia. Os dados indicam que os contratos de arrendamento assinados têm caído e o preço médio por moradia baixa ligeiramente. Que valoração fazem?
--Isto vem por um oco que se deixou na Lei de Moradia. A sociedade civil demandava que se regulasse o mercado de aluguer temporário e de habitações, porque se previa que o que ia ocorrer era isto: ante a regulação dos arrendamentos de moradia habitual, os caseiros e fundos de investimento iam a virar à moradia temporária e para assim não acolher às regulações e limitações. Daqueles barros, estes lodos.
--Há quem acham que esta situação é extremamente insostenible e a borbulha fincará, que opinam?
--A borbulha de facto já existe, a questão de quando explodirá é algo que não conhecemos, como também não suas consequências. Esperemos não chegar a isso e que seja resolvida pelas administrações, que tomem medidas valentes que não nos conduzam a milhões de desahucios.

