Mais não sempre é melhor, nem tão sequer daquilo que é necessário

Boa parte do negócio dos suplementos sustenta-se sobre uma ideia tão intuitiva como equivocada: que se uma substância é necessária para a saúde, consumir mais contribuirá mais benefício

mas no siempre es mejor 1250x700
mas no siempre es mejor 1250x700

Ouve o artigo agora…

0:00
0:00

Atribui-se ao médico e alquimista suíço Paracelso (considerado um dos pais da toxicología) uma frase que resume uma das lições mais importantes desta disciplina: "Nada é veneno, tudo é veneno; o veneno está na dose". Cinco séculos após tê-la formulado, esta segue sendo uma das ideias científicas pior compreendidas pelo grande público.

Se pensas em "veneno" é provável que te vingam à cabeça substâncias estranhas, perigosas ou artificiais como algum gás nervoso (Sarín, VX, etc.), o arsénico, o cianuro, a toxina botulínica... Mas a realidade é bastante menos intuitiva: praticamente qualquer substância pode resultar perjudicial se a quantidade é suficientemente elevada. Inclusive aquelas sem as que a vida seria impossível.

Nada é veneno, tudo é veneno

O água e o oxigénio são, provavelmente, os melhores exemplos. Nenhum ser humano pode sobreviver sem água. No entanto, beber vários litros em muito pouco tempo pode provocar uma intoxicación grave, que em casos extremos pode chegar a causar convulsões, coma e inclusive a morte. Por sua vez, o oxigénio, esse gás imprescindível para a vida, tem o mesmo "problema", a administração de oxigénio em concentrações elevadas e durante períodos prolongados pode provocar toxicidad e importantes lesões pulmonares.

No terreno da alimentação temos infinidad de exemplos. Aqueles nutrientes que precisamos porque desempenham uma função vital se tornam daninhos quando se superam certos limites (em inglês "Tolerable Upper Intake Level" ou UL). E, isto é importante, praticamente todos os nutrientes têm estabelecido seu "limite superior".

Por citar só uns poucos exemplos, a vitamina A, essencial para a visão e o sistema inmunitario, pode provocar toxicidad hepática e alterações neurológicas quando se consome em excesso. O mesmo ocorre com minerales como o ferro ou o selenio, indispensáveis para múltiplas funções fisiológicas, mas potencialmente tóxicos acima de determinadas doses. E assim com a vitamina D, o magnésio, o calcio, a vitamina C. Nestas tabelas da Autoridade Européia de Segurança Alimentar incluem-se as UL para vitaminas e minerales.

A necessidade não converte o excesso em virtude

Nosso organismo precisa quantidades concretas de nutrientes, nem muito poucas nem demasiadas. As justas dentro de margens concretas. Manter esse equilíbrio, o que em termos de fisiología se conhece como homeostasis, é uma prioridade. Quando esse equilíbrio se rompe, tanto por defeito como por excesso, aparecem os problemas.

No entanto, essa ideia choca com uma intuición tão estendida como errónea: se uma quantidade é boa, uma maior deveria ser ainda melhor.

É uma forma de pensar que aparece constantemente no âmbito da alimentação e a saúde. Se as proteínas são necessárias para conservar a massa muscular, mais proteínas deveriam traduzir-se em mais saúde. Se o magnésio participa em centos de reacções do organismo, um contribua extra deveria melhorar nosso rendimento ou nosso descanso. Se uma vitamina desempenha tal função, tomar um suplemento deveria potenciar ou melhorar essa função. Assim parece que devesse ser, mas em biologia as coisas não funcionam assim.

Não funciona em biologia nem também não em outros âmbitos. Se a teu carro de gasolina metes-lhe o combustível de litro em litro nos cilindros (em vez de nas quantidades precisas que dosifican os injetores) teu motor afogar-se-á e parar-se-á. Mais não sempre é melhor. Ao invés, superados certos limites, inclusive daquilo que é necessário, pode pôr tua saúde em risco.

A publicidade de suplementos aproveita-se da intuición dos consumidores

Existe um corpo legal de alegações de saúde autorizadas que se permite fazer sobre a presença deste ou aquele nutriente nos alimentos ou nos suplementos. Por exemplo: o calcio contribui à manutenção dos ossos em condições normais. O magnésio participa no funcionamento normal do sistema nervoso. A vitamina C contribui ao funcionamento normal do sistema inmunitario. Todo isso é verdadeiro. E expressá-lo no etiquetado, legal.

O que já não pode se deduzir automaticamente é que uma pessoa que não apresenta nenhuma deficiência vá obter benefícios adicionais por consumir quantidades superiores às necessárias.

A diferença é enorme porque converte-se uma suposta necessidade fisiológica numa desnecessária promessa comercial.

A ciência da nutrição leva décadas mostrando que a maioria das pessoas obtém todos os nutrientes que precisa mediante uma alimentação variada. Quando existe uma deficiência diagnosticada ou uma situação clínica concreta, a suplementación pode ser necessária e inclusive imprescindível. Mas essa é uma situação muito diferente que a de recomendar suplementos de forma generalizada a pessoas sãs com a expectativa de melhorar funções que já se desenvolvem com normalidade.

Para além da própria natureza humana, qualquer sistema biológico tem evoluído para funcionar dentro de margens relativamente estreitas. Nem a carência nem o excesso são desejáveis. Em ambas situações se assume um risco considerável para o sustento de dito sistema.

Saberias dizer quanto deste mineral ou daquela vitamina cobres com tua alimentação?

Dantes de tomar um suplemento convém fazer-se uma pergunta muito singela: sabemos quantas vitaminas e minerales contribui já nossa alimentação diária? A pergunta é legítima (e prudente) porque, se não se sabe o que se introduz com os alimentos e se sabemos que o excesso é perigoso deveras no-la vamos a jogar incluindo megadosis deste ou aquele nutriente? (sim, os suplementos costumam incluir os nutrientes em "megadosis").

Recorda que o melhor suplemento segue estando no plato e que só com o plato, no marco de uma alimentação equilibrada, é difícil acabar tanto no déficit como no excesso.

Adicione Consumidor Global como fonte preferida do Google de forma gratuita

Mantenha-se informado com as últimas notícias da atualidade.

Ativar agora